O foco é a percepção.
O estado de inquetude interna nos distancia tanto de nós mesmos, quanto mais dos outros. Estamos tão fora do real, que temos que fingir quase que o tempo todo. Não podemos sentir raiva em certos momentos, em outros não podemos sorrir – sempre sob restrições. Mas se nem a raiva é verdadeira, como fica a felicidade?
A questão não é suprimir a mente, a raiva ou o medo. Mas percebê-los fortemente, abrir o peito ao que vier: viver sem preconceitos ou falsidade, mas com verdade. Se estiver com raiva, sinta-a por todo o seu corpo, devore-a, deixe-a fluir, não resista. Não fuja, permaneça. Quando tiver medo, degluta-o. Silencie-se internamente, sem devaneios, aquiete-se, fique, sinta.
A inquietude da mente é banida pelo silêncio. E o silêncio permite a plenitude, sem perder-se dentro de si, podemos perceber realmente o outro. Não há mais projeções nossas sobre o outro, mas o simples outro. Livres de si, tudo se torna novo, fresco, nada é conhecido; o outro é um processo infinito de mutação, nós nunca o conhecemos. Explore, pois. Aja, interaja plenamente sem pensar, pois é como a vida age: descontraída, sem tensões, misteriosa. Ao estar com alguém, deixe-se fluir, aja sem almejar: sem espera, objetivos ou resultados. Assim, não há previsibilidade, mas envolvimento real. Faça duas vezes antes de pensar – ou nem pense.
Estando presente sob todas as formas, o sofrimento ou a alegria tornam-se periféricos, o ser está no centro: ativo e passivo, dinâmico e silencioso.
Mas ainda há algo no palco: nós mesmos, ainda não estamos totalmente plenos. Depois de estar consciente do palco, de trocar o cenário e rostos, de experimentar a luz e a escuridão , é preciso ir além do palco: quebre o palco. O palco é uma bolha, o ar de dentro é o mesmo do de fora.
“No princípio, quando estava à procura de Deus, eu pensava em lançar minha gota de água no oceano do divino. Mas quando isso aconteceu, foi bem o contrário: o oceano derramou-se sobre minha pequena gota”.
Dissolva-se no próprio abismo a tal ponto que não há mais você, não há o outro, só a existência: o “não-ser” é o puro ser. Não há dicotomias: bem ou mal, certo ou errado, céu ou terra, realidade ou sonho, verdade ou ilusão – há movimento.



Achei seu texto com um tom bem acadêmico meu caro.
ResponderExcluirSuas reflexões acerca do ser, embasadas quase que exclusivamente na psicologia, mostra uma visão bastante sintética do ser, e ao final do seu texto, o destino torna-se quase desesperador.
Bem, não creio que tudo seja tão sintético, apesar de como você deve saber, eu ser um grande fã da análise "não sentimental" do animal humano.
Suas reflexões acerca do Ego, são em grande parte muito bem fundamentadas, mas creio que nesse campo há apenas uma falha: a existência do altruísmo.
Enfim caro Gustavo, continue com o bom trabalho que está fazendo aqui, e eu permanencerei atualizando seu blog.
Um abraço.
Fico grato por ter lido esses textos. Só não precisa de tanto formalismo nos comentários, meu caro andres. haha x]
ResponderExcluirBom, durante o texto tentei focar-me no aspecto aparentemente básico do "ser": a autoidentificação. E, assim, desconstruí-lo.
Se por sintético você se refere à existência, sim considero-a bastante simples e direta. A complexidade surge a partir dos nossos infinitos devaneios mentais acerca da existência, mas ela, em si, parece-me bastante simples, nada muito sério.
A entregua total realmente aparenta ser como um ato de desespero, afinal significa "abandonar" todas as certezas mundanas. O que não quer dizer que devemos negar as certeza , ou os sentimentos, mas saber que não são estáticas e que, pois, é perigoso colocá-las como base. Assim, não as ignoramos, mas as vivemos completamente, pois não há perigo de queda.
Quanto ao altruísmo, se feito de maneira espontânea e não como um "dever moral"(tirinha do oswaldo), talvez seja exatamente uma consequência do "não-ser": sem o apego a si mesmo, o olhar e o dar ao outro é natural.
Em uma palavra: compaixão.
É um tema interessante para uma postagem próxima. ^^
Abraço!