Link da Parte I
Ao nascermos, saímos de uma situação aconchegante e cômoda. A saída do bem-estar do útero materno causa um distúrbio enorme, é preciso respirar sozinho, olhar, sentir: uma nova onda de sensações aflora. Nascer dói. E logo buscamos o aconchego de novo, as mães continuam a nos amparar por um bom tempo, ainda é cedo para sairmos sozinhos por aí.
Essa relação do “trauma do nascer” – ou “cicatriz umbilical psicológica”, para alguns autores- , a qual busca atenuar a situação de desamparo , vai sustentar-se pelo resto da vida, caso deixemos. Um exemplo comum é que quando somos forçados a deixar o peito da mãe, tal sensação transfere-se para situações semelhantes a esse momento: passamos à mamadeira, dedo, pirulito, cigarro...Inicia-se a angústia existencial...
No início da infância, entretanto, agimos de maneira inusitada, espontânea, sem pensar nos resultados. Tudo é novo. Não sabemos falar, a mente não tagarela o tempo todo: não há análises racionais, lógicas ou de causa e efeito – o pensar não atua. Pensar precisa de tempo, relaciona-se ao futuro ou passado, nunca ao agora. Estamos ainda inocentes de identidades, somos o puro ser, pura ação.
Mas logo somos forçados pela sociedade a agir de determinada forma: ame seus pais, obedeça-os, obedeça seus professores, ame Deus, seja católico, islâmico, hindu – ande, coma, pense dessa forma : torne-se uma máquina.
Além disso, esse desamparo também é reforçado pelos aspectos mencionados na parte I: a inconsistência do que somos e das incertezas inerente à vida. Tais aspectos causam tremenda insegurança e aflição, e logo buscamos aliviar essa tensão sobre objetos, pessoas, lugares, etc. A sensação de incompletude sempre nos leva a tentativas de preenchimento. Daí começam os vícios: cigarro, drogas, álcool, sexo - qualquer coisa que alivie tensões. Surge a necessidade de independência e de ser único, ao mesmo tempo que entra em conflito com o ser diferente (não-reconhecimento).
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| O Ego. |
Daí nasce o egocentrismo demasiado: para nos afirmar, tentamos possuir, ter posse sobre o outro- afinal é minha felicidade, meu amor, minha vida.
Possuir significa tornar estático, moldável a nossas vontades. Mas no momento em que possuímos algo, nós o matamos. A vida é movimento, dinamismo, incerteza, simplicidade – ao contrariar isso, destruímos. As pessoas viram bonecos: peças do cenário, as quais tentamos manipular e controlar para satisfazer nossos desejos. Criamos nossa autodefinição e procuramos por coisas que a completem: que coisas refletem minha personalidade? Nós nos projetamos no exterior, nosso “eu” torna-se exterior – ou melhor, afirma-se no exterior.
Assim: “as coisas que você possui acabam possuindo você”.
Pare de tentar controlar tudo, let it go, let it be. É impossível controlar a vida, pare de tentar mudar o curso do rio e abandone-se sobre ele. Não lute, receba a energia, deixe-se ser o próprio espaço: a entrega total. Isso não significa ser passivo, ao contrário: é abrir espaço para ser plenamente ativo.
Tentamos andar pelo céu: é a ilusão da rigidez e segurança no que é fluido e dinâmico. Criamos papéis e faces que nos representam, que nos adaptam às situações. A depender do cenário, fingimos sermos extrovertidos, felizes ou tristes. Encenamos inconscientemente. A nossa autoenganação é tão intensa que não a percebemos. Temos medo de olhar para dentro e não encontrar nada. Daí enchemos o palco de cores, pessoas, nomes, relacionamentos: gustavo, filho, estudante, casado, tímido, solteiro, agressivo, etc.
O palco está tão cheio e inquieto que tampouco conseguimos nos ver.
- Continua...





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