" Mesmo as épocas de opressão são dignas de respeito, pois são obras, não dos homens, mas da humanidade, e portanto da natureza criadora, que pode ser dura, mas nunca é absurda.

Se a época que vivemos é dura, temos o dever de amá-la ainda mais, de penetrá-la com nosso amor, até que tenhamos afastado as enormes montanhas que dissimulam a luz que há para alem delas."

do prefácio de " O despertar dos mágicos"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Parte I: Subindo no Palco.

Instantes antes da estréia.

Agunia, tensão, nervosismo, alegria, expectativa, concentração: caldeirão de emoções ainda nos bastidores. Hora de subir no palco. O que nos espera, o que esperam de nós?

Ensaios, suor, treinos constantes, tudo em busca de um objetivo: o momento no palco. Passado, futuro, que importam agora? As cortinam abrem-se, o brilho da luz nos olhos, a platéia é ofuscada, silêncio.

Hesitação.  

                          Voo.





A vida assemelha-se a uma peça - improvisada, talvez. Não há preparação, roteiros, treinos ou ensaios prévios. Mas o espaço ainda está lá, enquanto há peça, há atores e, portanto, há papéis a representar. Ao nascermos ganhamos uma identidade de alguém que nos diz ser nosso genitor (a), um nome e uma data. Tornam-nos indivíduos concretos e definidos, com o script já previamente estabelecido. As normas sociais, morais, jurídicas e costumes já apresentam-nos uma gama de informação, máscaras, papéis e identidades. É o jogo. Demarcam os pensamentos, atitudes e gostos. Criam-se os modelos e roteiros. Afinal, como atuar sem saber o que somos? Como dar os primeiros passos sem chão firme? 


A vida é incerta e misteriosa. Entretanto, por isso, somos. Temos que ser-existir (?). É possível existir outra possibilidade? Medo. E onde está o "eu" nisso? Diante da incerteza do ser, a busca pela nitidez do "eu" torna-se o fundamento do resto de nossa existência. Sob vários nomes e formas tentamos nos autoafirmar perante aos outros e a nós mesmos: fazermo-nos únicos, especiais, insubstituíveis. Identificação, certezas, respostas, estabilidade, realidade: filho, casado, 42 anos, estudante, empresário, pintor, mãe, tímido, extrovertido, etc.


A necessidade de identificar-se torna-se viciante,  prendemo-nos a essas aparências com toda a força, pois repudiamos o incerto e abraçamos a proteção e segurança. E, mais do que isso, forçamos o outro a nos convencer do nosso papel. Nos relacionamentos, geralmente, queremos alguém que reforce o que acreditamos, reforce nossa visão e crenças, dê-nos mais cimento. O demasiado diferente e contrário não tem lugar. E se esse alguém for uma pessoa com mais "legitimidade", é a ela que desejamos. Não o outro, mas a nós mesmos. Apesar de que, no fundo, sabermos dessa ilusão, o medo desse "não-ser" nos cega.

Dessa forma, essa instatisfação "ensimesmada" e egocêntrica tentarão apoiar-se em objetos, coisas, lugares e pessoas. 
Fonte: capinaremos.com


A satisfação desvia-se para o externo: no casamento, nos filhos, na casa dos sonhos, no relacionamento feliz, naquele emprego...pois, aí sim, estaremos completos, felizes de verdade. E quando tais desejos não ocorrem, e mesmo quando se realizam? Um tremendo vazio. O fracasso e o sucesso tem a mesma face: o inócuo, vazio - solidão. Daí a nossa insatisfação vai justificar-se naquela pessoa ou situação: a culpa cai sobre o outro - nossa inocência se mantém. Não sabemos lidar com o efêmero e com as oscilações mundanas. Perguntamo-nos qual foi o erro, pra onde ir, e, surpresamente, já buscamos outro desejo..again and again..


A pressão de adaptação é constante. Após algum tempo, deparamo-nos com conflitos e nem sempre a adaptação é possível, daí surgem as frustrações: às vezes não somos o melhor profissional, as metas não são alcançadas, não somos reconhecidos, o mundo não orbita em torno de nós, perdemos, etc. E o que sentimos? Raiva, ódio, frustração...

Somos seres limitados e frágeis e negamos esses aspectos ao invés de aceitá-los,  lidar e aprender com eles para, quem sabe até, superá-los...

O que há alem de uma face?

-Continua...

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